Porque faço movimentos em base ajoelhada sendo que poderia realiza-los em pé?

 Segue um artigo retirado do blog do professor Rafael Alonso http://rafaelalonsofc.blogspot.com.br sobre uma pergunta frequentemente realizada nos centros de treinamento, e sua resposta está ligada ao assunto estabilização. 

 
A estabilização do tronco, ou do “core”, é um assunto muito discutido no âmbito do treinamento de força e condicionamento. Vamos tentar simplificar este tema.
 
Quando um músculo se contrai, ele “puxa” seus dois pontos de fixação, e geralmente um dos pontos é o ponto onde se deseja mover algo. Seja em cadeia cinética fechada ou aberta, de forma dinâmica ou isométrica, um músculo deve ter um ponto estável onde ele pode gerar força. Em nosso corpo, um importante ponto estável é a coluna vertebral. A estabilização é um processo neuromecânico complexo, instantâneo e contínuo, que requer a análise de grande quantidade de informação sensorial-motora (tátil, proprioceptiva, vestibular e visual).
 
De maneira simplificada, a estabilidade pode ser considerada como a capacidade de resistir a mudanças indesejadas na posição ou no movimento.
 
Um fato interessante a ser pensado é que, quanto mais próximo e largo for o centro de gravidade do chão, mais estável se torna o objeto.

 

No exemplo, o primeiro triângulo vermelho é mais estável que o triangulo verde.
No corpo humano a coisa fica um pouco mais complexa, já que em muitos gestos, esportivos ou não, queremos que apenas parte de nosso corpo se estabilize para que outras partes possam se movimentar com força e potência. Imagine um jogador de futebol, quando corre lateralmente e chuta a bola.
 

 
Neste exemplo, o jogador precisa estabilizar uma das pernas para que a outra perna se movimente, juntamente com uma rotação e flexão do quadril e extensão do joelho, para criar uma onda de choque que lançará a bola até o local desejado. Refletindo ainda mais sobre este caso, logo notamos a quantidade de informação que é necessária para tal jogada: O jogador precisa controlar seu corpo, rastrear os jogadores, localizar a bola, gerenciar sua distância de seu corpo e pensar em uma jogada.
Podemos notar que é uma quantidade assustadora de informação processada de maneira muito rápida pelo cérebro. E a estabilidade corporal global depende da estabilidade de cada articulação.
 

 

 
Quando pensamos na segurança e na evolução das pessoas dentro da área de treinamento, não podemos deixar de pensar na estabilidade estática e dinâmica e no controle articular. Por este motivo é que geralmente os padrões de movimento se iniciam a partir de uma base ajoelhada ou semi ajoelhada, onde temos que pensar em menos articulações para estabilizar e, assim, realizar a tarefa desejada com maior atenção.
 
Ao executar uma base ajoelhada ou semi ajoelhada nós aumentamos nossa base de apoio e diminuímos nosso centro de gravidade, gerando maior capacidade de estabilizar o corpo, além de praticamente excluir o fato de ter de controlar as articulações dos tornozelos e joelhos.
Como dito anteriormente, nossa estabilidade está altamente ligada com nossas articulações, nestas articulações e nos músculos existem mecanorreceptores, e 90% da informação relacionada a estes receptores é tida como irrelevante pelo nosso cérebro. Por exemplo, não sentimos nossas roupas ou nosso tênis em contato com nosso pé o tempo todo.
 
 Imagine que se o processo de entrega e de feedback das informações destes mecanorreceptores seja, de alguma forma alterado... pronto, temos uma alteração na mobilidade. Se essa informação é alterada, consequentemente, teremos uma estabilidade ruim.
 

Exercício press vertical realizado nas bases semi ajoelhada e ortostática.

 

Sempre que possível, incentivamos nossos clientes a executar movimentos nestas bases, para depois progredirmos para a posição ortostática. Desta forma, buscamos criar um processo didático pelo qual o cérebro consiga, aos poucos, processar todas as informações relevantes para que os padrões de movimento sejam realizados com a maior qualidade possível.